Sunday, October 22, 2006

A (Annie Sprinkle): Do you think we actually made an impact on the world? What world/s?
V (Veronica Vera): The world has responded to us, sometimes with approval, sometimes with disapproval. I think the great challenge is something you attributed to something Carolee Schneeman told you, that we need to 'guard our meanings.' The world is always ready to make its own interpretations and simplifications, we need to stay vigilant that what we mean is clear, especially to ourselves. I see that with my academy project. It is not just about a man in a dress, it is about personal liberation and empowerment. It is about assimilating a consciousness. It is about changing the world.

Excerto da entrevista “breakfast with Veronica Vera: the performance art of sex work”, in “Hardcore from the Heart: The Pleasures, Profits And Politics of Sex in Performance (Critical Performances)”, Annie Sprinkle e Gabrielle H. Cody, 2006.

Cap. A
Amateur
A distância que vai do filme exposto em Guimarães em Setembro deste ano a este, torna, enquanto preparação pessoal para lidar com a questão da pornografia, o primeiro acidental e o segundo deliberado. A discussão pública não aconteceu (apenas a privada), a censura e o boicote também não e as opiniões foram chegando aos trambolhões, de todos os lados, boas e más e algumas boas/más. Confesso que as últimas foram as que mais contribuiram para se desenvolver em mim uma verdadeira onda de mixed-feelings. A avaliação do vídeo e o reconhecimento deste como parte do meu trabalho aconteceu com grande naturalidade até uma semana depois da exposição quando surgiu o primeiro feedback fora da euforia da inauguração.
A crise pessoal, circunscrita a esta questão, prolongou-se por algum tempo até se transformar numa força positiva de encorajamento para começar outro filme (que estava já previsto para Outubro). O que aconteceu de facto foi que a necessidade de dar respostas me levou a procurar outro tipo de material de sustentação do vídeo.

Cheerleader
Alguns pontos de partida: Será toda a pornografia má pornografia? Serão as mulheres consumidoras de pornografia? É a pornografia abusadora da figura da mulher? As imagens da pornografia são esteticamente interessantes? Não procurei obter respostas rápidas, tentei encontrá-las através da experiência directa, realizando um filme que me ajudasse a entender o tema para melhor me posicionar. (No entanto, fazê-lo já foi em si uma tomada de posição.)

Classics
Depois de uma semana de visualização massiva de cultura porno, encontrei pornografia esteticamente irrepreensível e de grande qualidade. Recolhi um conjunto de boas imagens de pequenos filmes, alguns deles disponíveis gratuitamente na net como amostras (gosto em particular de sites indie porn), longas metragens e principalmente dos anos 70/80 (talvez porno chic), que guardo na memória.
Vi também, e praticamente em igual número, filmes muitíssimo desagradáveis. Incluíam exploração, violência, agressividade, abuso e dor em níveis muito elevados sem qualquer tipo de preocupação de constituir um enredo e sem critério na escolha de imagem. Ou seja, o pior da pior pornografia.
Do espectro de filmes porno, pude concluir que havia uma grande diversidade. Isto é uma verdade comprovável pelo número de géneros e subgéneros e pela variedade de classificações como soft/hard ou ainda outras como a cor da etiqueta, idade apropriada, etc.
Concluo que há uma forte probabilidade de existir boa e muito boa pornografia. Pelo menos tanto quanto existe má pornografia.

For ladies
Ao avançar, decididamente, para o primeiro filme eu já tinha ganho, aliás, perdido, o medo a este género de imagens. Alguns dias depois do filme estar em exposição encontrei uma amiga que me lembrou que alguns meses antes eu lhe tinha recusado um convite para fazer um filme porno!
Neste momento ainda não me revejo na mulher que sai à rua para ir comprar um filme ou ver as últimas novidades dos gadgets sexuais na sex shop mais próxima simplesmente porque não me identifico com o gosto dominante destes sítios e porque acabei por me acomodar à utilização da net para aceder a sites ou a fazer compras online. Assumidamente, consumo pornografia. Calculo que não seja uma excepção. Certamente existirá um número surpreendente de mulheres a consumir pornografia, no entanto não sabemos o que procuram. Caracteriza-as a discrição dos seus hábitos e atitudes perante a pornografia.

Upskirt
Relativamente ao abuso da figura da mulher, dentro da variedade de filmes (é preciso não esquecer), possivelmente estará mais presente num género do que em outro. Mas vale a pena questionar: o que se entende por abuso? Será a exploração do corpo da mulher e da performance que este opera em cena? Será a utilização deste mesmo corpo como suporte de violência, dor e humilhação? Esta tentativa de dar uma resposta será necessariamente evasiva, uma vez que a questão é sensível. Compreendo que este seja um trabalho difícil, mas sê-lo-á para ambos os sexos. Certos depoimentos de actores masculinos reflectem precisamente a dificuldade em conseguir uma erecção e mantê-la durante o tempo necessário até a cena estar satisfatoriamente concluída. É conhecido que a pressão nas filmagens recai sobretudo no elemento masculino uma vez que o enfoque é dado ao pénis (que é substituto do homem enquanto sujeito por inteiro!) e à sua presença como motor da acção. Curiosamente é a pornografia gay que parece trazer mais dificuldades ao parceiro activo da relação, para além da pressão que referi, tem um lado mais violento que exige da pessoa uma extraordinária preparação física.

Femdom
Por outro lado, partindo do principio que a pornografia é direccionada para o olhar masculino (que o é maioritariamente, e é pelo menos a mais divulgada pelo mercado a ver pelas prateleiras das lojas e video clubes), ou seja que é para homens, estamos a pensar sobretudo no jovem individuo, heterosexual, destituído de grandes devaneios e excluímos de imediato toda a pornografia gay masculina, a transexual, a s&m, com animais, com objectos, etc, onde nem sempre está presente a figura da mulher. Novamente, a pornografia é tão diversa que é redutor tomar a parte pelo todo. Um bom exemplo são os filmes s&m onde a humilhação masculina é um tema recorrente.

Pedal Pumping
Com isto não quero dizer que consinta toda a pornografia (sobre a violência de algumas imagens considero que existem limites e que cada um deve reconhecer os seus) e que desculpe o sexismo existente. Acho-o tão presente e tão impositivo como em toda a cultura em geral. Sou da opinião que a pornografia dita tanto comportamentos sexuais dominantes como abre novas possibilidade de expressão da sexualidade de cada um, permitindo encontros com outros métodos de estímulo na procura de novas formas de prazer. Num dos sites mais interessantes que já acedi (parece uma biblioteca gigante, como vi uma vez em Oxford, UK) existe uma secção fabulosa chamada Instructional, onde se ensina o Cross Dressing, ou seja, a travestir; a usar as cordas em performances s&m; a fazer um hand job, a si próprio ou ao parceiro/a; ensinam-se troques de fellatio, a organizar uma sessão de sexo em grupo entre outros ensinamentos, e muitas das vezes é reforçado o carácter educativo colocando uma ardósia no cenário.

Tickling
Alguns pontos de chegada, sobre o meu filme: o filme é soft core, mas contém imagens sexualmente explicitas, logo é pornográfico, mas não segue os códigos da pornografia. Será porno?
O filme é idêntico à realização de uma fantasia masculina, será que foi feito para o olhar masculino?
Estas questões foram retiradas de conversas com amigos sobre o primeiro filme. Assumo que o filme até possa passar por “vulgar” à primeira vista, mas fora minha intenção jogar entre os dois universos, o da pornografia e o das artes visuais. Deliberadamente usei um dos meios priveligiado da arte contemporânea, o vídeo, e a possibilidade de o expor numa instituição, num centro cultural, para dizer coisas realmente importantes para mim; ao mesmo tempo estou fora dos circuitos da “indústria da pornografia” mas quase dentro pela imitação das etapas de produção de um filme do género (o que incluí actrizes semi-profissionais, criação de cenários, etc) e mesmo na edição final. Em ambos estou com um pé dentro e outro fora, posicionando-me como uma insider e uma outsider em simultâneo. A estranheza que muitas vezes foi referida tornou-se para mim o aspecto mais importante de todo o filme e muito provavelmente o que melhor espelha os meus propositos. Pessoalmente o filme não me provoca nenhuma sensação particularmente estranha, bem pelo contrário. Após a exposição o filme sofreu alguns cortes, foram retiradas algumas cenas que me pareciam prejudicar a atenção do essencial no filme, com este novo ajuste o filme ficou ainda mais próximo do que eu imaginei. Procurei então encontrar uma justificação para este desencontro de opiniões.

Instructional
Mais uma vez ajudaria dar uma explicação por percentagens aproximadas se existissem dados suficientes. Da totalidade do material visual a que chamamos de pornografia uma pequeníssima parte, talvez a mais pequena de todas, é dedicada ao género all women ou all girl para mulheres. E daí nós nem prestarmos muita atenção ao género ao ponto de ser praticamente invisível.
É conhecida a curiosidade masculina em observar e em alguns casos interagir com duas mulheres que estejam a ter um relacionamento sexual e o mercado da pornografia (e não só, mesmo na publicidade mais banal de uma marca de jeans é capaz de usar visualmente este desejo) dá resposta a essa procura. Mas é totalmente desconhecida a curiosidade de uma mulher de se relacionar com outra mulher, ou seja, projectar-se numa das personagens e sentir prazer (sensual, sexual, estético, etc.) ao ver(-se) a interagir com outra mulher. Por duas más razões: a) as mulheres não gostam de pornografia; b) as relações sexuais entre duas mulheres são entendidas geralmente pela falta, pela ausência do pénis, logo não é sexo “a sério”. Logo, pode-se perceber a questão, será isto porno? Sim, é pornográfico, soft core, all women ou all girl, realizado por uma mulher e que pretendendo ser também para mulheres.




Cunnilingus
O desvio estará sempre presente na realização de qualquer obra, quer seja um desenho quando a mão não obedece, quer seja um texto que é escrito com as palavras erradas, quer seja vídeo que não é suficientemente directo. Pretendi orientá-lo o mais possível aos meus propósitos, no entanto, não me posso defender da acusação de ter produzido material pornográfico para o olhar masculino (e deste modo contribuir para mais um vídeo na prateleira dos vídeos pornos most watched). Do mesmo modo que as mulheres recorrem à cultura homossexual masculina (principalmente a revistas) para verem boas imagens do que mais apreciam num homem, ou simplesmente por curiosidade, também é natural que o olhar masculino se sinta excitado por estas imagens. Ou seja, não me parece ser possível separar as “águas” a este ponto. Agora, vale a pena voltar a falar na tal estranheza e conjugar aqui uma série de aspectos já referidos: há diferenças, ainda que subtis, entre um show lésbico mais vulgar e este filme. Está presente no filme um ritmo muito próprio, uma sensibilidade especial que os filmes porno não têm normalmente. Em todo o filme se presencia imagens visualmente interessantes, bonitas, que apresentam o encontro de duas raparigas, fora da cidade (ver texto anterior), para terem uma experiência fora do julgamento social. Ao observador é dado a acompanhar um momento de intimidade descomplexado, natural (recorreu-se ao mínimo na criação do cenário) onde o corpo da mulher é celebrado positivamente.


Cap. B
Ballon
O meu projecto desta vez era criar um cenário doméstico, talvez uma sala, para conseguir um ambiente mais íntimo para o filme. A protagonista do filme estaria numa situação perfeitamente natural e iria interagir com os objectos espalhados pela casa. A única orientação era precisamente que ela sexualizasse tudo o que estivesse contido naquela área. Interessava-me sobretudo que ela se estendesse pelas paredes, chão, mesa, sofás, pequenas peças decorativas e telefone e deixasse a marca da sua presença nas coisas que ficaram. Pretendia que um cenário disponibilizado ao público para entrar e sentar fosse o momento de cruzamento entre as duas realidades, fora / dentro de um filme porno.

Ponyplay
Numa semana compraram-se os móveis, tentou-se arranjar vestuário mais interessante, tentou-se arranjar dinheiro, contactaram-se actrizes, planificaram-se as cenas, etc. Em ambos os filmes a produção foi absolutamente desgastante, mas a deste último foi, sem dúvida, a mais complicada. Pelo caminho fui encontrando vários obstáculos, desde a dona da loja de roupa que não me atende, às actrizes que têm que sair do país e ao dinheiro que deixa de existir. Por um mal entendido ocorrido durante um telefonema, toda a produção foi paga por mim à excepção das paredes do cenário e possivelmente, a edição do vídeo. Os valores dispendidos já tinham disparado muito acima do valor acordado para a produção, mas contava com aquele apoio para ajudar a suportar os custos. Neste situação valeu a pena equacionar todos os ups and downs presentes e passados para prosseguir com as filmagens, captação de imagem, a edição do vídeo e a exposição final. De facto, as filmagens foram o momento alto de todo este processo, quer pela animação presente e pelo conforto de não estar sozinha, quer pela partilha e confronto de ideias entre todos. As filmagens não passam apenas pela concretização das planificações registadas nos meus cadernos, mas pela flexibilidade de deixar que todos participem, que acrescentem qualquer coisa sua, desde a performance da actriz às duas camaras que registam o olhar particular de quem filma.

Crush Freaks
Para estes dois filmes tive pouco tempo, dinheiro e, consequentemente, poucas alternativas. Assumo os ganhos e as perdas. O filme, como resultado, podia ser outro em outras condições (mesmo pessoais), assim este é o melhor possível.

2 comments:

Anonymous said...

o filme é lindo. o texto é lindo. parabéns!

vanessa paradis said...

quem é linda é gata!