Friday, August 31, 2007


Regressada de férias finalmente tenho tempo para ler e responder à intervenção do JF no JP.
Após todos estes meses tenho interesse em voltar à questão que desencadeou toda a discussão: se o museu ignora ou não deliberadamente os artistas locais.

Recapitulando sucintamente o que me levou a dizer o que disse:
. existe um museu de arte contemporânea e existe um grupo de artistas, ambos coabitam numa mesma cidade, numa mesma geografia.
. os artistas conhecem bem o Museu: trabalham nele, vão às exposições e aparecem nas actividades programadas.
. o Museu (através dos seus responsáveis), por seu lado, não conhece bem nem os artistas, nem as actividades que têm desenvolvido nos últimos anos.
. e porque será?

JF respondeu claramente a esta questão várias vezes – logo na altura e mais tarde em diferentes momentos e por diferentes meios. Para além do tempo e dos compromissos agendados é porque não houve nada até à data que concretamente suscitasse interesse para se pôr a par do que se passava.
Entendo-o.

O que é certo é que isto aconteceu até existir uma maior atenção do Museu para o que se está a passar nesta cidade através da delegação desta tarefa ao Ricardo Nicolau. O que é, diga-se, bastante louvável.

O que entendi entretanto, nas palavras de JF, é que também não é da competência do Museu (qualquer que seja e onde esteja localizado) olhar para os artistas emergentes locais ou não - a palavra “local” também nunca foi bem compreendida, embora eu já tivesse explicado. Esta é uma razão forte o suficiente para a justificar a distância do Museu à geração de artistas mais novos.

Então, sou tentada a perguntar, em primeiro lugar porque contesta a minha afirmação e segundo, porque o RN tem tarefa que tem? Esta postura parece-me ser contraditória.
Entendo que seja apenas um interesse pessoal do JF estar inteirado do que se passa na cidade. Fico contente com isso, como é sabido nós artistas gostamos de atenção.

Recentemente um jovem curador espanhol especificamente de "vídeo art" disse-me que não lhe interessava nada trabalhar com o MACBA e outros artistas, do mesmo contexto, disseram o mesmo. Seguem com o barco para a frente e têm outros objectivos que não passam por expor no MACBA. É um facto que qualquer artista para produzir obra dispensa o Museu (a não ser que seja o tema do seu trabalho), não pensar no Museu como destino das suas obras também me é familiar, mas estar completamente à parte, pareceu-me radical. Não sei se na prática é mesmo assim, mas parece-me que estão de facto de costas voltadas. Desconhecem-se mutuamente e deliberadamente.

O que me fez reflectir novamente na questão, e pensar que a visão que tinha do Museu era outra, imaginava uma cooperação mútua, pelo menos aqui, numa cidade que tem apenas um Museu e a Culturgest. Mas se calhar é mesmo assim e em todo o lado (BCN, NY, etc), eu é que confundi "alhos com bugalhos" e pensei que fosse possível uma relação entre ambas as partes diferente – fazia parte do meu Museu Imaginário.

A questão também passa por aquilo que disse JF sobre a arte londrina. Pode não ser tão estimulante quanto a anterior dos YBA, mas "es lo que hay"! Verdade seja dita que quando lhe perguntam pela arte do Porto tem que se referir ao que se passa por aqui nestas redondezas e alguma coisa (que não seja muito embaraçante) é mostrada.

É a que temos e é a que daqui a uns anos alguém vai querer (selectivamente) mostrar num Museu, assim imagino.

Por isso, e mais uma vez com algum receio das palavras e da interpretação a que levam, penso que o mais importante é reflectir porque é que a arte emergente no Porto não é melhor. É certo que há falta de discussão sobre o trabalho que se faz e mesmo sobre Arte em geral e poucos são os momentos agendados para o fazer. É verdade e concordo. Teremos todos que investir mais neste ponto.

Condescendências à parte, porque não são necessárias, a atenção que é requerida, pelo menos da minha parte (e por isso volto a pisar a linha de tensão) é a de activamente e participativamente transformar a realidade em vivemos e trabalhamos em algo que seja melhor.

5 comments:

Ligia said...

Breves comentários -

1, À empresa Serralves interessam os consagrados, não os emergentes. Faz parte da política! É assim que se consegue agradar os patrocinadores, com muitos visitantes. O que sai fora disso parecem ser ousadias.
No entanto, convém estar de boas relações com os emergentes - porque somos portugueses e afáveis e não gostamos de confrontos? Porque um ambiente morno lhes convém, dá algum poder? Porque se os emergentes todos se chateassem, perdiam colaboradores, visitantes, e futuros artistas? Eles saberão.

2, Em Barcelona bem que podem ignorar o MACBA e a sua programação alienada, mas duvido que ignorem todas as outras plataformas existentes, algumas institucionais, outras civis - desde os okupas até aos centros cívicos dos bairros, há o estímulo para a discussão, desenvolvimento e produção. Convém sublinhar o papel que o município tem tido na promoção destes espaços, vendo-os como necessários para uma vivência plena da democracia. E convém mencionar a proximidade que, frequentemente, o trabalho artístico tem com um público mais amplo, não-elitista (nada a ver nem com o circuito alternativo do Porto, nem com o cheiro a mofo da Miguel Bombarda).
E não me venham dizer que isso não é estimulante e que tem um papel importante na melhora da qualidade artística geral!!!!
O MACBA é um bocejo para turista ver!!


3, O porquê da arte emergente não ser melhor, cada um sabe de si - o que também poderá ser parte do problema.
Para quem desenvolve trabalho a partir do contexto, quanto mais rico e aliciante for o contexto, melhor... todos precisamos de desafios e de discussão. Por estas bandas, parece temer-se cairmos facilmente no maldizer. Se calhar, também faltam mais intercâmbios - ver como noutros sítios solucionam problemas como os nossos, sempre ajuda!
Ou ainda vinga um bocado a ideia de que, quem quer ser artista a tempo inteiro, mais vale ir para o estrangeiro.
O que faz falta são as plataformas intermédias (entre as galerias e o Grande Museu) e o activismo cívico! Residências de artistas! Intercâmbios! Espaços experimentais com relevância social!

Andam cansados, mas não tem sido o suficiente.

vanessa paradis said...

Obrigada por tudo, mas por isto principalmente:

- Para quem desenvolve trabalho a partir do contexto, quanto mais rico e aliciante for o contexto, melhor... todos precisamos de desafios e de discussão.

Anonymous said...

Gostava de falar de uma coisa que talvez pareca anacronica, mas nao sei como evita-lo... O sentimento de pertenca a local, que advem do nosso envolvimento com as pessoas, com o entranhar da vida da cidade e a consequente vontade de agir...
Todos nos queixamos e chegamos ate a emigrar por breves periodos, mas aqueles que sempre sabem que vao regressar e fazer coisas, que tanto sufocam de claustrofobia aqui como sofrem de saudades acola, esses sao os que se sentem traidos pelo poder local e pelas esferas institucionais. No momento em que se entregam de corpo e alma a projectos que julgam ser do bem comum, e esbarram na desconfianca e descredito de meia duzia de senhores. Enquanto nao se der meios a quem pretende mudar algo, nada mudara, e a solucao final sera sempre partir.

Anonymous said...

Espero que estes "comments" não repitam o triste ataque a Serralves. Se Serralves exite é porque é uma fundação semi-privada. Sabemos que o que a limita é também o que a torna possivel.

Sendo o Museu Nacional, cabe a Serralves estar consciente da realidade na qual trabalha: conhecer o contexto para o qual produz exposições e a partir do qual poderá produzir exposições. Não pode ser exigido a Serralves que funcione como um trapo que tenta remendar todas as carências do país.

Serralves não tem culpa de ser um extremo no contexto nacional.
Exige-se diversidade e arrojo a um Museu que seja estimulante para os artistas e que tenha a capacidade de iniciar novos públicos. Que Serralves tenha a capacidade de trazer artistas de qualquer geografia mas também a de apresentar o artistas portugueses no exterior: Nos últimos 50 anos de arte portuguesa há certamente nomes interessantes ainda que o contexto internacional não esteja particularmente interessado na nossa realidade, história ou fraca economia.

Tenho pena que Serralves tenha sido usada como face das instituições. Tenho a certeza que não fazia parte dos planos de IC.

Esta discussão não deverá ser nunca sobre SERRALVES E OS ARTISTAS DA SUA CIDADE.

Não cabe ao Museu mostrar "The next big thing" nem esta geração é "the next big thing". Se passaram 5 ou 10 anos e pouco aconteceu é porque 5 e 10 anos é muito pouco tempo. Não são artigos no jornal que nos deixam felizes nem mais crentes no futuro. É só a minha/nossa vontade!

"Se é velocidade de consumo que procuramos, o melhor é mudarmos-nos para Londres."

Anonymous said...

O último comentário aqui depositado parece-me bem intencionado mas um pouco ingénuo. Sem dúvida que não nos resta mais que atirar para a frente, mas recuso determinantemente a proposta de deixar de criticar o que é todavia criticável. “Serralves não tem culpa...” lembra-me a história da menina loira criticada pelos coleguinhas de escola e que diz não ter culpa de ser bonita; pois, mas tem culpa de, por isso, ser uma imbecil de tão arrogante que é para com todos à sua volta!

O mais aborrecido nisto tudo é que a lenha tenha acabado e a discussão estivesse, desde o início, destinada a não avançar. Discussão a sério com propostas sérias, a partir de ideias bem estruturadas e até pouco realistas, em cima da mesa para se averiguar o que fica e o que se deita fora!

Alfredo