Wednesday, November 21, 2007

COLAR AQUI O TEXTO DO JAM (10M)


1. Gosto mais daqueles anos em que só chove depois do Natal.
Todas as manhãs entra luz pela janela do quarto e tal é a intensidade que parece que ainda estamos na primavera. Depois os agricultores dizem mal da seca, da geada, do frio e dos fundos europeus – naturalmente falo de cor, porque não percebo grande coisa disto, embora o meu pai, que era vinicultor no Douro, tivesse feito um grande esforço para que eu, uma maria-rapaz, fizesse alguma coisa pelas vinhas!

2. Mas como costumo dizer, todas as experiências ajudam pelo caminho, e tudo conta para contar uma história. Por exemplo, o meu nono ano em economia serviu para ficar com umas luzes sobre gestão. Muito embora eu tenha perdido toda a parte prática (assinar cheques e outras trivialidades), a parte mais importante acho que retive! Não tenho queda para o negócio, mas sou boazinha a fazer cálculos.

3. Depois da chuva, da agricultura e da economia...
A conferência de ontem sobre “O público paga a cultura?”, com o Delfim e o JF, apresentaram-se posições muito claras sobre a Cultura e o seu financiamento e nem de propósito este momento encaixou com o assunto do post anterior.

4. A dada altura, o que me deixou mais inquieta foi não ter sido referida a posição dos artistas, como produtores, no meio da cultura/dinheiro.

5. Interessa-me particularmente articular esta questão com o Sábado passado.
E talvez dar razão ao Mário na avaliação que ele fez desse dia – foi o JAM que acrescentou alguma coisa à discussão sobre a Arte neste contexto. Não tive oportunidade de falar com ele sobre o assunto, nem imagino sequer que tenhamos a mesma posição sobre isto em particular ou sobre outros assuntos, mas reconheço que foi bastante perspicaz a sua intervenção ao pedir três euros pelas entrada da sua exposição.

6. Focando a questão no apoio à produção, há 3 opções: apoios financeiros públicos, privados e mistos! Não, há 4 opções - falta o auto-apoio. Não, há a 5ª opção: o apoio directo do público, como neste caso. Ou poderão estar estas incluídas nos anteriores opções?

7. A exposição do JAM era um bocadinho má. Gostei que as duas peças ilustrassem alguns clichés da arte contemporânea mas era preciso ter mesmo paciência para ver aquilo. O que valia a pena atentar era o facto de se reclamar ali dinheiro para ver a exposição. Isto assustou alguns e poucos foram os que entraram. Fui embora cedo, e não tive oportunidade de voltar, mas a exposição deve ter sido um sucesso!

8. Os apoios públicos são difíceis de conseguir, os regulamentos complicadíssimos, a selecção nem sempre isenta e os prazos apertados. Os apoios privados, se vão a concurso passam-se as mesmas dificuldades que os públicos, se são por selecção ainda pior, é arbitrária e os critérios são os da “limpeza” e do “polido”. Os mistos, não conheço nenhum, se calhar quando se trabalha com um Museu? (Não sei, mas também não é a missão de um Museu estar preocupado com este aspecto – da produção). O apoio que conheço melhor e que usufruo para a produção, vejamos...é o meu emprego.

9. O meu emprego não é, infelizmente, a minha actividade artística, por isso, não é o meu trabalho artístico que me sustenta a produção. Aliás, sou auto-sustentada/apoiada de um modo especial – se calhar, tal como o Museu ou outra instituição se faz valer de outros serviços (incluindo alugar espaços para casamentos!) para financiar as exposições, eu também recorro a outros talentos para fazer vingar o meu capricho artístico.
Em segunda fila, o apoio descende de uma entidade pública e outra privada e ambas nada têm a ver com a minha actividade artística. Se tudo continuar a correr bem, continuarão sem grande conhecimento ou influência no assunto.

10. O investimento feito pelo próprio ou pela família e amigos, é o financiamento que eu melhor conheço. E que só pode ser bem recebido segundo um ponto de vista optimista, segundo o qual pensamos que estamos a investir no próprio futuro e que após o arranque a coisa funcionará por si mesma. Isto quer dizer, que numa escala mais modesta, e nas exposição/manifestações de artes plásticas especificamente, o público não paga directamente coisíssima nenhuma.

11. Por isso, pedir 3 euros, não será uma proposta razoável de participação do público na Arte e de sermos uns para os outros, dinamizar uma micro-economia e nos tornar-mos auto-sustentáveis? Não foi certamente esta a intenção (!?), mas podia ser uma boa ideia.

12. Mas, por outro lado, a desgastada, velha e bonita equação: Público = a direito à cultura e Estado = obrigação de impulsionar a cultura – não é aplicada à escala modesta das exposições mais pequenas (fora de grandes instituições que são outra conversa). E este contexto acaba por sofrer de dois fantasmas, o do estado patrocinador e dos grandes mecenas privados (bancos, seguradoras e etc!). Não podendo contar nem com um nem com outro.

13. E então em que é que ficamos?
Obviamente que eu me sentiria melhor se me especializasse na minha actividade artística dentro de condições mínimas. E claro que eu desejava o mesmo para muitos dos meus colegas. Sou a favor de apoios à produção artística, mais bem pensados, mais inteligentes sem a sombra da dependência a pairar!
Tínhamos a ganhar todos, as formigas e as cigarras – à vez, o público e os artistas.

14. Já sabemos que o orçamento para a cultura é pequeno, há muito apontamentos a serem feito, mas o principal é que não há (não sei se já se pensou seriamente nisso) uma estratégia devidamente pensada, séria, de apoio para as Artes Plásticas. Falamos da Europa, temos os exemplos dos EUA, mas a nossa situação não há maneira de melhorar. Observamos a Holanda, a Espanha, a Inglaterra, a França e muitos outros países que nos fazem morder de inveja: é só olhar para eles com atenção...e para o JAM que nos lembrou que nos podemos sempre auto-sustentar! (...e ficar num canto a brincar com os legos!)

(continuará!)

5 comments:

Anonymous said...

...os cartazes eram fixes!

THE WRONG GUY said...

Brincar aos legos:

http://www.youtube.com/watch?v=W63jec5rUpY

João Alves Marrucho said...

A exposição não é um bocadinho má, Isabel. É bem feia, de tom quase desinteressante. Além disso, acho que é preciso é ter força de vontade para gostar, e não "paciência", como disseste. Mas também o era com os impressionistas... Ou não.

isabel carvalho said...

JAM, neste caso pouco importava a qualidade, excepto a do conteúdo!
Má ou feia, tanto faz.

João Alves Marrucho said...

Sim... talvez.