Sunday, November 18, 2007



1. ÁRVORE
“…Estamos todos descontentes e não percebemos porque é que ninguém se manifesta por causa disto? Devia-se formar um grupo para deitar a árvore abaixo ou então organiza-se uma fisgada. Cada um com a sua e acabava-se com isto.”
Disse o Estrunfe Maior lá de Custóias.

Estava quase para lhe explicar o carnaval do dia de ontem, para ver se ele se entretinha, na sua imaginação, a dar outros usos à fisga. Rabos a acertar: nas marcas de whisky, nos bancos (principalmente), nas companhias de electricidade, nas seguradoras, nas marcas de café e cerveja. O melhor deste depoimento do Estrunfe é que pela primeira vez vai participar num projecto meu, siga para a fisgada! – Aliás, eu é que lhe saquei a ideia!

Se engolimos patrocínios sem saber (por distracção, afinal o objectivo de um patrocínio é não passar ao lado), valha-nos ao menos a capacidade de dizer que “não”, quando o desejamos fazer, aos que se mostram bem visíveis!

Antes queixávamo-nos da nossa coluna vertebral, torta e enviesada, porque olhávamos para o chão e pouco para cima (por timidez ou limitações de campos de visão), o que é certo é que ultimamente, é melhor olhar para o chão ou para os lados para não apanhar com as marcas que se estendem na vertical: quanto mais alto mais vistoso. (A Catarina tinha razão, parecem aqueles anúncios “...enlarge your baby-maker!”, que quer dizer “pénis”).

2. BOICOTE
Há uns anos atrás, na Suíça, num jantar com um grupo de alemães, quando nos colocaram os toalhetes e antes de o empregado pousar o prato, todos voltaram a face do toalhete com publicidade para baixo. Nessa altura começava a entender a noção de boicote, à marca tal e tal, por tal e tal consequência (sobretudo exploração, termo que se aplica a quase tudo: humanos, animais, recursos naturais, etc.) e de um boicote mais amplo, ao sistema capitalista, pela sua lógica de causa/efeito.

Confesso que tomei as minhas decisões e que as vou tomando com a frequência do dia-a-dia, embora acredite no esclarecimento mútuo pela utilização de diferentes meios (rádio, revistas e tv alternativas), em grupos de “conscious raising”, manifestações e tudo mais, sou contra as imposições de qualquer ordem e moralismo absurdos sobre as posturas dos outros. “Ya, se estás comigo, podemos fazer alguma coisa juntos, ‘bora lá deitar a m-rda da árvore pró c-ralho!”. Se não estamos, segue o teu caminho – e eu o meu!
Para mim é claro que no nosso contexto actual, escapar é formar uma opinião sobre um assunto, qualquer que seja. E já está. (E o Mário certamente que acrescentaria que para além de ter uma opinião, seria importante de emiti-la publicamente, certo?).

3. ELECTRICIDADE
Por aqui, nos últimos anos, os patrocínios estiveram sempre mais ou menos presentes, e com uma certa força, mas aplicados à arte é outra história.

No caso da companhia da electricidade, e a propósito do prémio, são mobilizadas pessoas, de prestigiado nome, com influência no meio e dispostas a compactuar nestas estratégias de patrocínio/mecenato, oferecendo os seus préstimos, ao entregarem uma lista de escolhas, para chegarem lá mais lá para o final, a um veredicto. As escolhas são as mais seguras e menos fluorescentes, uma vez que serve os interesses da entidade pagadora – de agradar ao público sem causar (pequenas, médias e grandes) perturbações de qualquer ordem. Consequentemente, podemos desculpar os seleccionadores, afinal, estes podem nem ser os seus critérios pessoais, estão ali em trabalho! [Os rapazes e raparigas mal comportadas estão lá fora a ler o regulamento interno da escola, estavas à espera de quê?]

As minhas dúvidas situam-se por aqui: por intermédio destas iniciativas, não estará a HA a ser constituída por nomes fruto de estratégias competitivas de patrocínio/mecenato? Por outro lado: não será já longa esta História? Da Monarquia ao Vaticano, não foi sempre uma questão de medir forças = $?

Mentiria se esta fosse a primeira vez que penso nisto e que me surgem dúvidas a este respeito - afinal o “meu” banco é o grande patrocinador (debatendo-se mesmo por ser exclusivo) do Museu. E mais, já lá vão uns anitos, desde a primeira vez que se falou deste tema, a propósito da electricidade. Mas, na altura, acentuava-se a ideia de que o artista era o tal que sacrificaria a sua arte (e consequentemente a sua própria energia).

Hoje a situação parece naturalizada. Parece-me que está entre o afrouxamento da nossa consciência e o aumento da paciência.

4. MORNO
Olhando retrospectivamente e após recuperar do dia de ontem (bebi 5 águas enquanto dançava, ai Jesus!),
a) a passagem pelas inaugurações foi um tormento pela animação de rua e valeu pela exposição do Brito, JAM, Ferrão e Ramalho e pela dupla que estava na entrada do CCMB. A Rua MB parecia uma caricatura de uma inauguração, em ponto maior, pois vale fazer tudo, menos dar atenção à Arte – para isso, “volte mais tarde”, quando saírem os palhaços!;
b) na exposição da electricidade, com novidades e nervos, vale a pena fasear a atenção em dois tempos, a estrutura do prémio e as obras apresentadas. São situações claramente separadas, nas quais vale a pena reflectir. Pessoalmente é mais aliciante pensar no seguinte: esta semana inauguraram duas exposições relativas a dois prémios, de um banco e de uma companhia. Este momento convida a pensar nas causas e efeitos disto tudo. (Ontem na ida para casa, penso que a Catarina ou o Pedro, um deles, falou no uniforme do artista. Que siglas usarias?)
c) depois dos Pop del’Arte – desculpem-me, mas gosto de concerto curtos, a dada altura aborrecem-me até os melhores – veio a disco~ball e o “gang dos 4” cantaram, “To hell with poverty”, demasiado irónico, não é?

4 comments:

Mário said...

Bom comentário.

Graças ao mecenato, os bancos não só pagam menos impostos, como podem decidir tudo o que se passa nas artes – e de resto em tudo onde metem o dedo.

Para tornar o mecenato a única solução, demonizou-se a "subsidio-dependência", substituindo-a pela "patrocinio-dependência", que é bem pior.

Ao menos com a "subsidio-dependência" ainda tinhamos a ilusão de poder decidir através do voto quem dava os subsídios.

lígia said...

Parece-me que o maistream sempre foi assim. Quem está à frente só se sente incomodado quando é incomodado: os cargos de poder cultural têm tendência ao comodismo, exacerbado num país com poucas alternativas (ou "concorrência", já que falamos de dinheiro). Prima o gosto pequeno-burguês que caracteriza a nossa "elite" e que lhe garante alguma sensação de superioridade intelectual. Ao fim ao cabo, para a grande maioria da população, os possíveis significados dos trabalhos (neste concurso ou noutro qualquer) são incompreensíveis e inacessíveis. Por outro lado, os que resmungam são meia dúzia - logo, insignificantes.


Em relação às inaugurações simultâneas (gostei do diminutivo MB, também Multibanco), aquilo sempre foi um circo. Não havia palhaços de vaso na cabeça, mas sempre foi um desfile para ser visto. Para ser outra coisa, as galerias teriam de apresentar algo melhor (mas lá está, comodismo parte 2).

Enfim, it's just capitalism. Um espanto seria se as coisas se passassem de outra forma; e triste se, como são, nos deixássemos de indignar.

lígia said...

ps: O "meu" banco não se mete nessas merdas. Há outras opções no mercado.

isabel carvalho said...

Ultimamente, a melhor opção é guardar as notas no colchão ou então é vê-los (aos bancos) por toda a parte.

No Palácio, nas fachadas, nas bolhas de ar das praças e nos escorregas. Quando menos contares ainda o vês numa fachada!

E bancos & Arte...iuuu! Da Culturgest e ramificações aos prémios de pintura!

Vou deitar-me cedo para a conferência de amanhã.

beijos