Wednesday, July 09, 2008


Debaixo deste tecto vivemos quatro. Como foi sabido e anunciado, iríamos dar as boas vindas a pelo menos mais um elemento e alargar a comunidade. Até hoje surgiram duas propostas, mas ainda não demos, nem recebemos, respostas definitivas.
Pois, a saber, nós somos quatro seres vivos razoáveis, com hábitos individuais relativamente constantes. Durante o dia, excepto nas actividades colectivas de lazer ou no momento das refeições, não nos cruzamos e não fazemos questão de fazer “companhia” uns aos outros. As saídas e as entradas não perturbam ninguém porque a porta é a serventia da casa e o lema da andorinha de barro pintado, pendurada na parede é “não te metas na vida dos outros se não queres lá ficar”. As refeições têm sido aperfeiçoadas dia a dia, mês a mês. Quer o conteúdo (apenas um é vegetariano, no entanto decidiram todos não comer carne em consideração ao quarto elemento que pertence ao mundo animal), quer o formato. Apenas um cozinha, dois limpam. Não há qualquer imposição, apenas valorização dos talentos de cada um. No momento de sentar à mesa, um é nomeado para a acção de graças. Este momento não é transposto de nenhuma vivência no estrangeiro, é uma lembrança dos campos de férias e da necessidade de partilhar pequenos momentos de outra maneira esquecidos e reduzidos a história dos episódios do próprio. A acção de graças não é mística, nem religiosa, nem espiritual – é a exposição de desejos de felicidade pessoal e profissional para o dia, a demonstração de gratidão por algo sucedido, o encorajamento para futuros empreendimentos, etc, entre todos e para todos, através de um porta-voz. Com convidados, não alteramos os hábitos e aliás, por vezes acrescentam-se situações mais curiosas. Para demonstrar a enorme satisfação de ter vistas, recebemo-las com danças improvisadas no centro da sala, às quais se podem juntar os próprios convidados, recitamos poemas, cantamos musicas tradicionais portuguesas e hinos de amor e ciúme, fazemos demonstrações desportivas e tentamos com estas actividades que as visitas prolonguem a sua passagem por mais umas horas.

A economia é básica e não acrescenta nada de inovador. Não há, por isso, uma ideologia marcada que a organize. Partilhamos as contas e não somos sensíveis às desigualdades financeiras dos outros excepto: na aquisição de bens culturais que são de todos e para todos – a cultura não se nega a ninguém, o pão sim. Temos por hábito oferecer presentes fora da época principalmente quando for para nós uma conquista na subversão da economia mundial – objecto “sacanado”, comprado a um preço baixíssimo, em segunda mão ou trocado. Só deste modo o presente faz sentido e é sentido.

A noção de satisfação pessoal através da experiência colectiva não existe, nem sabemos o que é nem como se faz. Se fosse de outra maneira seria aborrecido e estaríamos rapidamente a perder tempo a ajudar os outros a serem felizes. Por outro lado se alguém acreditasse mais em nós que nós mesmos poderíamos entrar facilmente em crise, e isso nós não queremos .
Gostamos da descoberta em si e assim nos mantemos.

Por isso, procuramos alugar um espaço para habitação ou atelier a quem não pense, nem ajuíze sobre o que aqui foi descrito e que esteja apenas disposto a partilhar.

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