Wednesday, October 03, 2007


Voltei à escola na condição de repetente. Não me cansei de repetir durante toda a semana o quanto isto era importante para mim, mas demasiadas vezes obtive a mesma resposta: “tu não reprovaste, desististe!”. Eu bem que dizia que isso tanto dava, que não tinha importância nenhuma, mas no fundo, acho que sentia uma certa desilusão. Na segunda-feira quando entrei na Secretaria da Faculdade, uma das funcionárias, entretida a atender mais um aluno e a tentar encaixá-lo num ano e numa turma qualquer, andava à procura de um dossier, que por acaso estava em cima do balcão, para entregar a outro funcionário, de uma tal aluna do MDI. Era eu. Debrucei-me para ver o que estava lá escrito e dizia em letras bonitas, escrito a bic - REPETENTE!

Então voltei à escola, fui à primeira aula e começa aqui o meu post de hoje.

Estava na aula de História do Desenho – o caminho que me levou a optar por esta disciplina é longo – e apontei coisas que tinha que fazer, do tipo: cabeleireiro, Rita, Laura, madeixas e tela. E estava em modo MDI - Mestrado Design de Imagem (ups!). Depois comecei a elaborar uma teoria da conspiração tipo: qualidade, efemeridade, talentos móveis e capitalização. Comecei a pensar que tomava um café para não me envergonhar em frente do professor B e não fazer as fitas que fiz no outro primeiro semestre. Falamos de literature artistic e gostei muito, depois de Alexander Cozens – meu Deus! há quanto tempo não ouvia falar deste tipo, o tal do método das paisagens a partir dos borrões de tinta!! –e mais tarde do Itten e da ginástica matinal que fazia com os alunos da Bauhaus! Depois, iniciei uma série de desenhos super-modernistas, brincadeiras formais com elementos geométricos até os juntar aos grupinhos e chegar a candeeiros! (Foi inevitável chegar à configuração de um objecto familiar, afinal é para aí que tenho a minha tendência) Estas referências vinham de trás e misturavam-se com outras que eu desconhecia, e apareceram articuladas no contexto da apresentação do programa da disciplina. Estava tranquila e deixei-me cair outra vez na moleza. Até ter ouvido o seguinte: “Nós que somos pintores temos que falar com as mãos!”. Penso que é uma tradução livre de uma citação de um artista do Séc. XVII. Estava incrédula, voltei à faculdade sem dúvida. Voltei ao momento em que um professor me mandou, a mim e à Natacha, um trabalho de casa: fundamentar se o graffitti era ou não arte! Eu disse que era, que era sim senhor! A minha colega disse que não. Eu defendi a minha postura com um fio de ideias muito básicas e bem intencionadas. A resposta do professor foi do género: “dá abracinho e beijinho e voltem a ser amigas!”. “Mas, mas, quem tem razão?”, perguntei, achando que é o mínimo que posso receber em troca do meu esforço. “Isabelinha, Isabelinha, há Arte com “A” grande e arte com “a” pequeno! Percebes!?”. “Sim, percebo. Tenho que dizer que sim, mas olhe que não concordo!”.

E assim se afirmou mais uma vez a minha má conduta. Eles (professores) todos me avisaram, explicaram tudo como devia ser e eu combinei com eles que aceitaria, mesmo sabendo que lá no fundo que nada daquilo era verdade. Foi difícil, mas habituei-me e não reprovei até me ter esquecido do “combinanço”! Dar aulas é difícil, principalmente nestes nossos tempos modernos – “Eu sou professor de História, mas a História não existe como uma sucessão cronológica de factos ! É tudo uma interpretação, uma violência, uma injusta deturpação do que aconteceu, odeio-me e quero morrer! Mas vocês têm que saber de História, por isso cancelamos por uns momentos o estudo das novas metodologias e voltamos a elas mais tarde, Ufa!”.

Mas bom, tenho mesmo que voltar à citação do pintor do Séc.XVII. Agora entendo o que se tem passado nos últimos tempos que me desgasta tanto. Eu estava no caminho da discórdia e encontrei-me de novo com a bonança das palavras sábias. Há muitos meses atrás, a senhora da plateia, meia escondida, em Serralves, bem disse “as obras, preocupem-se com as obras!”. Queria dizer que as obras falavam por si, por intermédio das mãos do Pintor, artista genérico. Queria dizer também que este não tem boca para falar, só mãos...a força das mãos por vez de uma parte da cabeça! Penso que as mãos batem palmas e fazem ruído, mas não articulam palavras, logo estão excluídos de um discurso legível e controlado!

Concordo com o valor das obras de arte por si mesmas, sem bilhetinhos explicativos. Há as que nos comovem violentamente (eu não minto, às vezes dá para chorar, para rir e até para devaneios sexuais) e as que nos fazem passar por experiências que não são facilmente traduzíveis. Há obras assim, que se arrastam na nossa memória e que a elas voltamos de encontrão.

No entanto, partir do princípio que as obras são realmente tudo, tudo com que o artista se deve preocupar, leva-nos ao seguinte sarilho: podemos acreditar que podemos produzir obras com qualidade independentemente do contexto e das condições de trabalho (e voltamos ao aborrecimento de ter falar desta cidade e do estímulo que tiramos da sua actividade cultural!)...! E de certa maneira, caímos no outro sarilho que é pensar que o que acontece, acontece pelos desígnios de alguém e não os nossos!

Pois bem, a produção não vai cessar – mais ou menos reflectida - porque se acredita que a obra é, repito, o mais importante, e uns terão mais qualidade e outros menos, e uns serão apanhados agora e outros mais tarde - ou então, nunca. Faz parte.
Mas a qualidade, penso eu, da obra de qualquer artista, embora fundamental, não justifica que o artista viva e trabalhe alheado do que o rodeia e das decisões que deverá tomar, confiante dos resultados que obtém. Isto porque há muitos talentos a sair das escolas e a trabalhar com afinco, também com qualidade. A diferença e a dificuldade é manter uma opinião e uma ligação de comprometimento com o que está para além e à volta da obra.

10 comments:

Anonymous said...

imago? khan .gonzales?

com a outra mão said...

ai se as minhas mãozinhas falassem!!....

zabelinha, bate palmas, canta!, usa as mões para o prazer que der e vier! e sempre que te chatearem com demagogias e inventabilidades absurdas, acena-lhes com quatro dedos e sorri!

....!!.... said...
This comment has been removed by the author.
a outra mão é foda said...

o segredo da felicidade (e da boa pele - contrariamente àquilo que ainda contam às crianças) está em não precisarmos que nos digam "vai-te foder" para de facto o fazermos. sózinhos e autosuficientes! batemos palmas e somos contentes!

manda a wanda aqui para o blog!

isabel carvalho said...

olá Miguel, com o meu perfil organizado podes encontrar lá o meu msn.
Bjs e obrigada pelo comment!

isabel carvalho said...

Que saudades desta maozinha tonta!
O texto serviu-te de inspiração?
Espero bem que sim...estava cheia de vontade de voltar a ver a certa tendência a funcionar. Guardo os nossos primeiros momentos com muita emoção (topas!?).

Faço votos que continue a excitar os nossos dias!

beijos

isabel carvalho said...

...mas devo-te dizer que não há razões para "botar" as defesas a funcionar, "one line a day keeps the doctor away!";

até breve!

isabel carvalho said...

...só não sei como responder ao primeiro anónimo!

isabel carvalho said...

Olá Bruno, agradeço os elogios, mas acho que prefiro guarda-los para mim!

Bjs

Anonymous said...

Oi, curti e respeito a tua cena privada!

BEIJO

Bruno